Meus amigos, companheiros de sala, companheiros de luta, o fim está próximo. Alguns colegas já mencionaram, da maneira criativa e particular deles, todas as peculiaridades que uniram, de alguma forma, nossa sala tão cheia de diferenças. Estaremos dispersos, juntos com os outros terceiros, compondo novas salas, que continuarão a seguir o caminho, tão próximo do fim. Assim, teremos alcançado a linha de chegada.
Mas, como diz o ditado, “A linha de chegada de um caminho é a linha de partida de outro”. Olhemos para frente... Passaremos, se Deus quiser. E os nossos caminhos definitivamente tomarão rumos diferentes. Não nego que, ora ou outra, por acaso, nossos caminhos irão se cruzar — naqueles momentos em que exclamaremos “Nossa, você por aqui!” ou algo do tipo. Porém nos despediremos com um “Até logo” e continuaremos a seguir, sozinhos, nossos caminhos.
Depois de alguns anos, vamos formar. Arranjaremos empregos, um melhor que o outro, e ganharemos cada vez mais. Poderemos sustentar nossa família, educar nossos filhos. Enfim, vamos ser felizes, como sempre acreditamos. Não é?
Acho que não. Sinceramente, acho que falta alguma coisa... E até por isso, escrevo este texto. Este texto é um alerta para que repensemos nossos objetivos futuros. Existem outros tópicos que devem ser incluídos, para que de verdade sintamos realizados no futuro. E basta olhar atentamente ao nosso redor, nas nossas ruas, nos nossos sinaleiros, nas nossas escolas públicas, que vocês entenderão os outros tópicos dos quais eu falo...
Há um mundo lá fora que clama por ajuda. A gente sabe que existem inúmeras diferenças sociais que abalam o Brasil, já estudamos isso em Geografia. Sabemos inclusive as causas antigas de tanta desigualdade, porque isso faz parte do programa de História. Já escrevemos, em várias redações, que “as desigualdades sociais que abalam o Brasil são gritantes” ou algo do gênero, e fomos elogiados por isso. Agora, estamos entrando na faculdade, prestes a receber conhecimentos específicos do nosso curso, prestes a entrar no mercado de trabalho e em contato direto com várias pessoas da sociedade. Podemos modificá-la, para melhor ou para pior...Penso que devemos utilizar nosso conhecimento a serviço não só da nossa vida, mas da vida dos outros, daqueles que precisam de ajuda.
Peço para o meu amigo que será professor de História, meus amigos que serão professores de Biologia e de Educação Física, peço que vocês não abandonem o colégio público quando vier uma oportunidade de emprego com melhores salários, porque os pobres garotos de lá precisam de profissionais bons como vocês. Peço para os meus amigos médicos e psicólogos, quando verem bater a porta de seus consultórios pessoas necessitadas, sem nenhum plano de saúde, desesperados por ajuda, que vocês estendam-lhe as mãos, mesmo que vocês não recebam nada por isso.
Peço para meus amigos engenheiros respeitarem os seus peões de obras, que seguirão exatamente aquilo que você pedir. Eles são seres-humanos, tem família, são iguaizinhos a gente — a única diferença é que ele não teve oportunidade de estudar, e você sim. Peço para meus companheiros de curso, meus amigos juízes, promotores, que vocês vejam nestes salários de 10 mil reais não uma maneira de acumular dinheiro e viajar para outros países, mas uma maneira boa de ajudar os outros, sustentando creches, abrigos, ONGs, ou, quem sabe, criando a sua própria ONG! Pode ter certeza de que eu estarei lá, na inauguração...
Meus amigos jornalistas! Não exponham apenas críticas em seus textos. Dê soluções! O governantes precisam de suas sóbrias opiniões. Meu amigo publicitário, não use a sua criatividade apenas para vender o produto de uma empresa e deixá-la ainda mais rica — use-a também divulgando pequenos projetos filantrópicos que precisam de doações e devem ser conhecidos.
Desejo, acima de tudo, sucesso para todos. Que nós guardemos para nossas vidas essa energia boa, alegre. Percebam que é isso que faz unir toda a sala! Mesmo sendo algo meio mongol, é isso que semeia nosso cotidiano enfadonho com alegria — porque a alegria é simples e boba assim mesmo. Não deixemos isso guardado num álbum de fotografias, levemos isso para nossas vidas, transmitindo essa energia boa para todos ao nosso redor — a família, os colegas de trabalho, as pessoas que vamos ajudar...
Chega a hora de nossa despedida. Foi muito bom tudo isso, todo o cansaço, a luta, a alegria, a paciência em ouvir minha voz cada vez que eu lia um texto, muito obrigado. Mas não fiquemos olhando para trás, dizendo “Como foi bom...”. Vamos olhar para frente, e dizer “Vai ser ainda melhor”. Porque o futuro, o futuro desse Brasilzão bonito mas ao mesmo tempo tão feio, esse futuro é nosso. E, portanto, de nossa responsabilidade.
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